E quando a gestação não acaba em vida?
- fernandalorencaops
- 20 de set. de 2017
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de set. de 2022

Quando vem a notícia de uma gravidez, vem junto uma visão de que a vida vai mudar por completo. O futuro parece se transformar numa dimensão quase que assustadora! Os dias que se seguem a descoberta parecem andar quase que como um processo anestésico que aos poucos vai passando e então a ficha vai caindo. E quando digo aos poucos, em alguns casos é bem aos poucos mesmo, caindo quase na 30ª semana, ou mais.
Vem com essa novidade, um ”pacotinho de planos”. Nem sempre imediatamente desejado. Nem sempre planejado, e as vezes ainda colocando outros tantos planos que eram prioridade lá pro final da fila.
A notícia começa a reverberar, como uma onda que se propaga e trás com essa ressonância uma série de expectativas que se somam a um coletivo as vezes nem tão familiar assim, já que não são só os parentes mais próximos que descobrem a gravidez, afinal de contas o corpo muda, e junto com isso, várias outras tantas mudanças se tornam aparentes, como a oscilação de humor, as idas ao banheiro porque a bexiga já não suporta mais a mesma capacidade de xixi, os enjoos do primeiro trimestre…
Com os dias e semanas, aquele pacotinho de planos começa a crescer e vai armazenando as expectativas dos pais, familiares e conhecidos.
Como será o rostinho? Será que é ele ou ela? Será que vai ser agitado como o pai? Vai puxar a inteligência da vovó? E o que a medicina nomeia de ‘feto’, do ponto de vista emocional, fica claro que desde sua formação inicial, essa ainda pequenina vida tem um nome, uma história e carrega consigo uma variedade de sentimentos intensos.
Esse relato é um composto das experiências que adquiri durante meus atendimentos à várias gestantes, um breve panorama do que ouvi entre um atendimento e outro. Experiências essas que vêm de uma realidade um tanto a parte do que normalmente se escuta sobre gestação. Atendi gestantes em uma maternidade de alto risco, e vivenciei a realidade das gestações que não foram ‘felizes’ como a maior parte da população denominaria.
O dia-à-dia comum do campo em que atuei, acolheu a realidade do aborto precoce e tardio, das mal-formações fetais, das patologias gestacionais e dos óbitos fetal e neonatal.
A partir disso, explico a escolha do uso das aspas para a palavra feliz, que usei a pouco. Dentro dessa realidade de sofrimento e dor é possível dizer que apesar dessas gestações as quais tive a oportunidade de acompanhar, carregarem dor, também trouxeram momentos de felicidade e realização.
Explico! [E aqui apresento o porquê de escrever esse texto]
Quando uma gestação não acaba em vida, ela não deixou de conter em si, todas as descrições que escrevi no início. Essas gestações geraram vidas. Vidas que foram interrompidas prematuramente, mas que foram vidas. E o mais importante, jamais deixarão de ter existido mesmo que brevemente.
Estão incluídos ai a emoção de ouvir pela primeira vez os batimentos do bebê, os primeiros movimentos fetais: os famosos chutes; a escolha do nome, a descoberta do sexo do bebê… Além de todas as vivências tristes e angustiantes de se perder um filho.
Assim, a proposta de reflexão com esse texto é trazer a importância de olhar para o que normalmente não falamos/pensamos.

Há uma infinidade de mães e pais construindo pacotinhos de planos, e tendo que inesperadamente se despedir desses planos e desses filhos que desejados inicialmente ou não, existiram e se vincularam desde o início de sua descoberta, independente do tempo em que sobreviveram. E digo isso incluindo aqueles bebês que se foram nas primeiras semanas de gestação. Pela minha experiência, pude entender que independe o tamanho e o nível de formação biológica de um filho, ele desde o início será um filho!
Com isso, é preciso olhar para o luto que esses pais, familiares e conhecidos vivenciam e o que se faz com essa tristeza que vem junto a esse par quase ilógico: gestação-morte.
A escolha por este tema vem mergulhado também no que vivenciei com esses atendimentos. É comum em minha prática ouvir mães que enquanto lutam para encaixar as palavras em um choro angustiado e intenso, explicam que não podem se vincular aos seus filhos porque eles partirão. Ou ainda mães que após poucos meses depois de perderem seus filhos, se vêem grávidas novamente, mas carregando uma tristeza imensa sem saber bem porquê não estão felizes como deveriam. Também é muito comum ouvir relato de mães e pais que passam a esconder sua tristeza e seu luto de todos e de si mesmos, motivados pela pressão da sociedade para se recuperarem e tentarem novamente, ou tocarem suas vidas adiante.
Quando falamos de perda, falamos necessariamente sobre luto! E luto é algo necessário. É preciso conseguir se despedir, viver a dor dessa despedida e deixar o tempo cicatrizar. E aqueles que não se permitem viver esse processo que é individual [portanto não têm um tempo marcado com data e hora específica para acabar], podem desenvolver feridas emocionais que demorarão muito mais tempo para fechar. Repito: É preciso viver a dor para poder se despedir dela. E o mundo hoje anda tão… não sei se a palavra seria ‘acelerado’, ou seria melhor ‘ansioso’, por remediar e resolver a qualquer custo o que dói, que aquilo que é mais primitivo e que nos compõe é jogado para debaixo do tapete. Por isso deixo aqui esse convite: – Busque espaços que possibilitem viver o que é necessário viver, mesmo que inicialmente isso seja amargo. Se você que está lendo já passou por algo parecido, ou conhece alguém que vive ou viveu esse processo de despedida, pense sobre isso, compartilhe essa ideia, incentive a busca por um espaço de acolhimento que possa promover o amparo dessas dores necessárias.


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